THAIS MAYSA VIEIRA MACHADO
Psicóloga racializada: sentir, transformar, aquilombar.
Aliado fundadorIdentidades

Eu sou Thais, 28 anos, matogrossense, mulher negra, futura mãe de gêmeas. Psicóloga, filha de relação interracial, sou fruto de encontros, dores e afetos. Atendo crianças e adultos negras e negros, aplicando a psicologia racializada. Faço palestras, rodas de conversa, procuro apoiar quem precisa, olho o cuidado integral — Idealizadora da Funké, fazemos parceria com outros profissionais da saúde. Apresentadora no afropapo na TV aberta, fundadora do clube do livro Carolina Maria de Jesus, à frente também da feira Ebó Dento, de empreendedorismo negro, onde conecto saberes e pessoas. Sonho em ampliar projetos, pesquisas, trazer mais referências para a infância negra, fazer a psicologia chegar em escolas e cidades com esse olhar coletivo, expandir as vagas da Funké, ter mais apoio do poder público. Desejo aquilombar, estar conectada a redes de profissionais em outros estados, construir espaços não só físicos, mas digitais e afetivos.

Desde cedo, o sentir me guiou. Por vezes sem saber nomear, mas uma professora enxergou e sugeriu: “psicologia pode ser seu caminho”. No segundo ano do ensino médio na escola, aquilo fez sentido e nunca mais abandonei o processo. Descobrir a psicologia racializada mudou tudo: entender que havia outra psicologia, de pessoas parecidas comigo, foi como voltar pra casa. A grande virada veio com o primeiro livro do Paulo Navasconi. Abriu a porta pra uma psicologia que não era universal (branca), dava sentido à minha história e à de quem atendo. Conhecer essa vertente, meio sem querer, no quarto ano da faculdade, foi reencontrar sentido após tantas dúvidas e dores no curso tradicional. No início dos atendimentos, abrir vagas sociais e raciais impactou mais gente do que eu esperava. Causou movimento. Não só nas pessoas, mas nos próprios espaços: inspirou mudanças na maneira de atender da região. O que é inegociável pra mim? A centralidade da questão racial. As relações têm que fazer sentido, partir de um lugar verdadeiro. Escutar e observar, tanto internamente quanto socialmente, revela o que foi negado à população negra por tanto tempo. Atuar nesse sentido faz diferença pra mim e para cada pessoa que encontro.